O concerto debaixo da chuva
Contado por Gabriela
Era noite fechada sobre o bosque. Dentro de uma mochila enorme, entre um saco-cama e um tablete de chocolate, viajava um passageiro clandestino. Chamava-se Gorgorito e era um Magikito pequenote, de orelhas pontiagudas, gorro vermelho e uma mixórdia de retalhos coloridos cosidos à maluca.
Tinha-se enfiado naquela mochila um par de noites antes, mal deitou o olho ao rapaz que a carregava. Porque o rapaz, Axel de seu nome, tinha qualquer coisa. O Gorgorito já tinha visto passar milhares de humanos, e quase todos eram dos que andam pela vida meio adormecidos, sem dar por nada. Mas este não. Este trazia um foguinho por dentro, uma vontade de viver que cheirava a aventura das boas. E isso atrai um Magikito como o mel atrai as moscas.
A coisa prometia: o bosque, a liberdade e o cheiro à terra molhada. Mas então começa a chover e ao rapaz fechou-se-lhe a cara. O Gorgorito deu logo por isso, porque os Magikitos pressentem uma má onda tal como farejam a boa.
Axel sentou-se no chão, apagou a lanterna e deixou-se estar às escuras, a dar a volta à cabeça. «O que é que estou aqui a fazer? Que isto não é pra mim. Que o melhor é voltar.» Mal sinal. E o pior: o rapaz levantou-se, vestiu o impermeável e começou a refazer o caminho para trás — de volta à cidade, de volta à bolha.
O Gorgorito, dentro da mochila, levou as mãos à cabeça: «Não, não, não!» Aquilo também tinha de fazer alguma coisa. E depressa, olhou à sua volta na penumbra da mochila e viu-a: a coluna, aquela geringonça que o rapaz usava para cozinhar. O Gorgorito mordeu os beiços. Trepou até ela, abraçou-se ao Botão com o corpinho todo e apertou com todas as suas forças. Deu trabalho, que o Botão era quase tão grande como ele. Mas por fim, tic — e o bosque inteiro rebentou!
Uma música alegre, brincalhona, atrevida, saiu de dentro da mochila e plantou-se no meio da noite chuvosa. Não era pouca coisa: trompetes, tambores, uma rodinha que cantava numa língua que não existia, a coisa mais deslocada do mundo, a mais absurda. O Gorgorito subiu para cima da coluna e foi-se a dançar como um possesso — aos saltos, a abanar as orelhas, a dirigir a chuva como se fosse uma orquestra. Ali era um concertão e o público era uma única pessoa: um rapaz encharcado, espetado no meio do caminho, sem saber que raio se estava a passar.
O Axel ficou a olhar para a mochila. Então aconteceu. Primeiro, um riso fraco, de quem não percebe nada; depois, uma gargalhada das boas, daquelas que não nos deixam dormir. Porque, vamos lá ver, o sujeito da aventura está em que a tua própria coluna se impõe, a espaços, de passagem, à chuva, àquelas horas da noite, uma absurdidade das boas!
E o rapaz, que um minuto antes voltava para a quadra de rabo entre as pernas, não deu meia volta. Acendeu a lanterna e seguiu para a noite, tomando as botas e o seu rumo. O Gorgorito, em cima da coluna, levantou os bracinhos em sinal de vitória.
Então, chegou a conta. Se não está no poço assim, para tirar o reposto, não sai de graça. Nunca sai de graça. De repente, pesavam-lhe as pálpebras. As cores dos retalhos tinham ficado desbotadas e as perninhas não lhe respondiam. Deixou-se cair sobre o saco-cama, enroscado, estafado. Mas sorria. E como sorria. «—Segue em frente, rapaz — murmurou.» Antes de ferrar no sono.
E isso ainda agora começou. Lá fora, a música continuava a tocar. E os ecos do concerto afastavam-se para o norte. E isso foi uma única busca.