O Sorriso do Sapato
Contado por Gabriela
O sorriso do sapato.
Era um dia qualquer no cabeleireiro do bairro. Um espaço pequeno e único, mas a transbordar de vida. Paredes de madeira, plantas penduradas por todo lado e uma parede de vidro que deixava entrar a luz. Havia de tudo ali dentro. Entre tesouras e pentes, as gargalhadas ouviam-se quase tanto como os secadores.
Mas nem todos que estavam ali se viam à primeira vista. Na prateleira das tintas, escondido entre o frasco violeta e outro roxo, havia um Magikito que se chamava Gorgorito. Era um saquinho nos pés e na cabeça. Orelhinhas pontiagudas, gorro vermelho, uma mistura de retalhos coloridos cosidos, uma mochila e uma casca de bolota pendurada ao pescoço. Adorava pregar partidas. Tinha um faro finíssimo para boa onda. Por isso gostava daquele sítio. Ali respirava-se alegria. E o Magikito da alegria alimenta-se precisamente disso: passar a manhã inteira de barriga para o ar, em cima de uma caixa de ganchos.
Afinal, a porta abriu e entrou ela. O sapato branco impecável. Por trás, uma mulher elegante, com uma mala de pele de crocodilo. Uma cara de quem está a cheirar qualquer coisa podre. A tensão entrou com a mulher, como uma corrente de ar frio. O Bruno, que conversava animado com o rapaz a quem estava a cortar o cabelo, calou-se. O rapaz, Axel, calou-se também. A Clara, que fazia sempre boa cara a toda gente, tentou manter uma postura invencível.
Nada. A mulher respondia com frases secas. Cada uma pior do que a outra. O sorriso de Gorgorito se desfez. Aquela mulher trazia uma má onda colada como uma segunda pele. Daquelas que andam pelo mundo a pagar tudo à sua passagem, sem dar por isso. Uma que aguenta muita coisa. Mas não podia ficar de braços cruzados.
É mais forte do que ele. O problema é que endireitar uma má onda daquele calibre não sai de graça. O Gorgorito sabia e, mesmo assim, desceu da prateleira. Deslizou pelo chão a desviar-se dos pés até chegar àquele sapato branco tão perfeito, tão imaculado. Tirou um marcador do seu saco, mais pequeno do que uma unha, e desenhou à pressa um sorriso torto na ponta do sapato. Não era um desenho qualquer. Era um feitiço que deixava a alegria infiltrar-se, mesmo que a pessoa não quisesse.
Terminou o corte, a mulher levantou-se e olhou-se ao espelho. A Clara tinha feito um trabalho impecável, mas ela não pensava agradecer nem morta. Então, baixou os olhos e viu o sorriso no sapato. Abriu a boca para soltar um grito de indignação. Mas o grito não chegou. O que lhe saiu foi um sorriso. Pequeno primeiro, depois enorme. Um que não conseguia parar. E por aquela frincha entrou-lhe de repente tudo o que ela andava há anos a tapar.
—Adoro! —exclamou, surpreendida consigo própria.
A Clara olhou para ela de olhos arregalados. A mulher, com um sorriso já impossível de tirar, abriu a mala de crocodilo. Tirou cinco moedas de ouro e pô-las na mão da Clara.
—Fica com o troco. Mereces, e muito mais.
E saiu do cabeleireiro a trautear uma cantiga. Leve pela primeira vez em muito tempo.
O Bruno, a Clara e o Axel ficaram a olhar uns para os outros, sem perceber nada. E na prateleira das tintas, no frasco violeta, a estante balançou e ficou quieta. O Gorgorito tinha voltado ao seu lugar, mas já não dava cambalhotas. Estava sentado contra o frasco, em posição, e os bordos dos seus retalhos iam-se apagando, como uma fotografia antiga. Aquela partida tinha-lhe custado caro à sua faísca. Sorria na mesma.
Pelo canto do olho, viu que o rapaz do corte de cabelo, o Axel, tinha ficado a olhar para a prateleira e assombrou-se. Estremeceu, como se tivesse dado por alguma coisa. O Gorgorito piscou o olho, embora o rapaz não pudesse ouvir.
—Tu e eu vamos dar-nos bem —murmurou.
Deixou-se ficar a descansar, a recuperar forças para a próxima má onda. Que neste mundo, infelizmente, nunca falta.